quarta-feira, 22 de outubro de 2008

22 de outubro

Não saber das tuas coisas me deixa um pouco mais triste. Não tenho mais tua euforia de quando chegavas com as novidades; embora que sempre colocavas “a carroça na frente dos bois” e fazia as coisas serem mais grandiosas do que talvez realmente fossem. Tu eras esperançoso. O homem mais esperançoso que conheci, e essa excessa esperança fizeram de ti um tanto precipitado. Mas não menor, mas não menos confiante. Embora que teus planos fossem diferentes dos meus, queria poder ainda ouvi-los, e ter pelo menos a possibilidade de imaginar que eu estivesse dentro de alguns deles. Porque eu sou a pessoa mais imaginária que você poderia conhecer. E a mais carente também. Não de caricias, não de qualquer outra coisa física. Eu sou carente de escutar. Principalmente as coisas que são tuas e que um dia foram nossas. Escutar teus passos vindo para o quarto na noite escura, escutar teu coração bater nas minhas costas, escutar teu ronronar enquanto dorme, escutar o som que meu corpo só faz com o teu, escutar tu fazendo o café da manhã, escutar o barulho do chuveiro enquanto tomavas banho, escutar você digitando enquanto eu assistia filme no sofá, escutar você pedindo pizza, dizendo o quanto eu era chata, dizendo o quanto você me amava. Minha carência vem de qualquer coisa que soa vir de ti. E eu não digo, e eu não peço. Eu que ainda te amo.
.
.
....
.
.
"Um inferno tem mais
realidade que o paraíso.
Voltar atrás é impossível
a quem se prende
na fugacidade das tarefas.
Ir adiante é impossível,
sem a comoção que conturbe
e desagrade a continuidade das horas.
..
Por que a culpa do que não foi vivido
é maior do que a culpa do que aconteceu?
..
O que é imortal não tem passado."
.
.
(Fabricio Carpinejar, in: Como no Céu. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2005. p. 16.)

Nenhum comentário: