Eu gosto de fechar os olhos. Sei que há muita coisa bonita no mundo: praias, campos, arquiteturas, primaveras, céus tão azulzinhos, as faces das pessoas, a maneira que cada sorriso se abre, que cada cabelo balança, a cor que se destaca na roupa e na pele, os tons das peles, os tons do sol se pondo, os tons que os dedos dão no piano, o violão na mão do músico, o corpo que lembra o violão, os pássaros nas flores, as flores na janela. Mas se gosto de fechar os olhos, não é porque não acredito ou não queira essa beleza toda, mas que olhando para dentro de mim, encontro coisas, formas, faces, esperanças que não vejo aqui fora, faço as coisas que aqui não sou permitida, invento coisas que não precisam maior burocracia do que soltar o pensamento, e vejo uma beleza tão grande e tão doce de ver, tão livre e inocente, que chega a ser egoísta de tão minha que se torna, e que extravasa algumas vezes, raras e dolorosas vezes, em uma poesia. Porque é difícil escrever sobre as coisas que se vê, sobre as coisas que se sente, sobre todas as coisas de um mundo particular que cada um tem para si. Poesia é coisa muito séria, muito íntima. Poesia é uma fé que a gente tem sobre a gente mesmo. É uma primavera que pode nascer e acabar a qualquer hora do dia. Fechar os olhos é muito arriscado, porque qualquer coisa que se sente pode querer borbulhar, flutuar, fugir para fora e virar palavra.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
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