domingo, 3 de agosto de 2008

03 de agosto


Se a gente soubesse quais seriam os últimos beijos e abraços, a última vez que escutaria aquela voz, sentisse aquele perfume nos impregnando os cabelos. Se ao menos desconfíassemos que depois daquela hora nunca mais haveria outra. Tanta coisa para ser dita, tanta coisa a ser sentida para que não fosse a última chance. Sabe vózinha, eu morro de saudades de você! De te ver saindo do quarto com teu cabelinho branco todo arrumado e já brigando com o vovô! Hoje eu estava revendo umas fotos, são de anos atrás, e em várias delas você usava aquela camisa de seda verde, sua preferida. Me deu uma dor tão grande de quase não lembrar o som do seu riso e de saber que nem posso te visitar nas férias para acordar cedinho e tomar chimarrão, e ouvir as histórias de seus finados e do vovô que você jurava que era um assanhado. Mas agora você deve saber a verdade... O vovô não aguentou de saudades suas e foi logo depois de tua partida. E agora vózinha, na sua casinha rodeada de verde, bem no interior do Rio Grande, não mora mais ninguém. Acho que sua casinha nem está mais lá, mas nunca vou esquecer dela, nem de você e do vôzinho. Nem daquele relógio que vocês tinham que ficava badalando de uma em uma hora e não deixava eu dormir a noite toda. O tio Jacinto tá morando na cidade, pertinho da vó Edith e do vô Aristeu. A vó Edith (sua filha) acho que é quem sente mais saudades. A mãe também. Na verdade todo mundo chora quando fala de vocês. Acho que a gente evita falar para doer menos. Mas a gente pensa sempre, porque a parte do coração que era de vocês fica sempre gritando e se mexendo. Vó, já andei de avião, várias vezes, e nem fiquei com medo, só deu um frio na barriga, mas depois passou, conforme a gente sobe tudo vai ficando pequeninho aqui embaixo, até desaparecer e tudo virar um tapete de nuvens tão branquinhas! Vó, você tinha que ter voado! Você não ia ter medo e ia achar lindo ver as nuvens pelo outro lado. Ah, vózinha, se lembra do meu caderninho azul com uma foquinha na frente? E sabe tudo aquilo que eu escrevia? Pois é, coloquei uns daqueles na internet (internet é um lugar onde todo mundo pode se falar pelo computador) e teve umas pessoas que leram. Já tenho um livro vó, estão até dizendo que sou escritora, depois vou colocar uma das poesias que fiz em uma das férias que passei contigo! Não estão tão bonitas como as de hoje, mas elas lembram você e me trazem o cheiro do campo e da comida feita no fogão a lenha. O Fillyp tá grandão e está jogando futebol muito bem, a mãe tá feliz e teve um outro bebê, o Gabryell, ele é especial vó, você se apaixonaria por ele. O mar, apesar de você não conhecer, está tão azul, que acho que nem ai no céu poderia ser tão azul como ele estava hoje! Vózinha e Vôzinho, não esqueçam de mim, eu ainda tenho o mesmo sorriso de quando desembarcava do ônibus e via vocês.



"o sol me beija
passarinhos cantando
um dia chegando
tão branco no campo
o chimarrão amargo
eu sentada na grama
a vida que demora
de passar nesse lugar"
Miraguai, RS, 2002.

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